Onde o Som Aprende a Tornar-se Luz apresenta-se como o resultado de um encontro entre som e imagem, entre gesto humano e vida algorítmica. Este projecto reúne Vítor Rua e Ilda Teresa Castro (Telectu), em colaboração com André Quaresma e Rita Barqueiro, configurando um território artístico onde a escuta assume um papel estruturante, tanto quanto a própria execução. Neste contexto, a música não acompanha a imagem, nem a imagem ilustra o som; ambos os domínios desenvolvem-se em paralelo, como organismos interdependentes que se ajustam em tempo real, aprendendo progressivamente os ritmos uns dos outros.
A componente instrumental assenta numa abordagem de desconstrução e reconfiguração tímbrica centrada na guitarra Steinberger, explorada por Vítor Rua, e submetida a processos granulares que fragmentam e rearticulam o seu material sonoro. Dispositivos como Cosmos, Mood, Tensor e Hologram operam uma dilatação temporal significativa, esbatendo ataques e suspendendo o decaimento, deslocando a percepção do gesto instrumental para um campo mais difuso e contínuo. Neste contexto, a guitarra, a harmónica e o The Pipe são absorvidos por estes processos, deixando de afirmar uma identidade instrumental fixa e passando a integrar um fluxo sonoro em permanente transformação.
Em paralelo, Ilda Teresa Castro desenvolve uma prática centrada na expansão do gesto no espaço: o theremin inscreve trajectórias imateriais no ar, enquanto um sintetizador Roland sustenta uma presença contínua, de evolução lenta, quase geológica. O piano digital, imerso na memória reverberante prolongada do pedal Mood, perde a sua natureza percussiva, convertendo-se numa entidade ressonante, mais próxima de um campo atmosférico do que de um gesto articulado. Estruturalmente, a performance organiza-se como um fluxo contínuo, evitando a lógica de peças fechadas e aproximando-se antes de estados em transformação. Os visuais generativos — sistemas musográficos baseados em autómatos celulares e desenhos algorítmicos em constante evolução — não acompanham a música, mas coexistem com ela, influenciando e sendo influenciados em tempo real. O resultado é um sistema performativo vivo, onde som e imagem emergem de um mesmo processo.
Entrada: 10 BOTAS